8.2.09

Terceiro plural

Haveis morrido,
morrido sozinha e perene,
haveis morrido,
morrido em mim,
jamais conseguirei sentir
a infância de silêncios
que ocultos
me morreram.
Haveis morrido,
morrido sozinha e transparente,
irrompida por poemas e
segredos que morrem,
morrem sozinhos e perenes.
Haveis morrido,
esperais sentada e assim
consumida por vozes e palavras
infinitamente infinitas
que, sem que as sintas,
te morreram.
Haveis morrido,
solenemente encarnado em
espíritos longínquos,
haveis morrido,
tempestades e sorrisos,
que caminham.
Haveis morrido,
por entre multidões
e vazios.
Assim.

Molero

22.10.08

Something

we expected something something better than before
há leves sinais, poemas que
se agrupam e se dissipam juntos
something something better than before
há silêncios escondidos por entre
palavras amarelas e
por vezes
encarnadas e ligeiramente
falantes, andantes
something something better than before
sentados esperamos algo
(algum poema poemas)
sentados esperamos
esperamos alguma palavra
(alguma palavra)
something something better than before.

Molero.

15.10.08

Transparência

Estico a retina ao ponto de a partir
consigo ver-te deitada e
congelada pela leveza dos poros
que se sucedem a cada milímetro
do teu corpo
Estico a retina ao ponto de a partir
consigo imaginar-te ausente
como se os sons se construíssem
a cada milímetro
do meu corpo
Estico a retina ao ponto de a partir
consigo ouvir-te olhar-te
pedir-te que segredes poemas
monossilábicos e transparentes.

Molero

6.10.08

Een Chocolaterie

Sucedem-se sons
imagens,
portos e barcos em Afuradas
profundas,
Sucedem-se poemas
imagens,
portos e velas
que esvoaçam
profundas,
Sucedem-se bicicletas
e recordações
de chocolates
profundos,
Sucedem-se alucinações
sonos perfeitos
esculpidos à perfeição
de arpas e acordes
maiores,
profundos sustenidos
arranham sucessões
de imagens e de pessoas
inquietas e petrificadas
por películas Kodac
Kodac
Kodac
Kodacdac,
Sucedem-se desejos
possíveis e outros
impossíveis
porque
sem eles
jamais
te
verei

sorrir outra vez.

Molero

10.9.08

Estudo sobre a ciência de viver

Os dias são como
silêncios,
por vezes silêncios
de anos, o
silêncio dos livros, dos
livros ocultos e
ligeiramente subalternos,
Um movimento azulado
entrecruza-se na
diagonal, há
silêncios
beijando-se ao fundo,
Dois livros
copulam, alegres,
letras de algodão.

Molero

29.7.08

As cores do poema

Há dias de cores indefinidas. Peguei
nas sucessivas partes do poema
e tentei uni-las, para que
conseguisse fazer delas
um corpo inteiro
e uno,
como o teu,
peguei em seguida
nas diversas partes do teu corpo,
para que conseguisse fazer delas
o meu,

Sorri.

Molero

14.7.08

Segundos círculos

Tivera sonhado que um dia conseguia viver com quase nada,
No entanto, viver com quase nada assemelhou-se longínquo e
fiquei pensando que conseguir viver com quase nada era difícil, De
seguida pensei
que viver com alguma coisa poderia fazer mais sentido,
Fiquei a pensar isto horas,
Depois pensei que realmente viver com quase nada se desenhava remoto,
uma vez que ter pensado que o conseguia, fez com que o conseguir,
ele próprio,
se tornasse distante,
Porém, uma vez que estava distante convenci-me em desistir de pensar
nisso e passar o resto da tarde a pensar noutra coisa qualquer,
porque, já que o pensar nisso o tornou distante,
se experimentasse passar o resto da tarde pensando
noutra coisa qualquer, poderia fazer com que
sonhar que conseguia viver com quase nada
se tornasse, enfim,

real.

Molero

2.7.08

O verbo apagar

Apagar-te, sim apagar-te, como se fosses
um novelo insignificante num mundo de
nadas, Apagar-te, sorrir perante ti e
nivelar os olhos com a régua das
palavras, frases e versos, seguir a
estrada do nada e ter como destino
o nada do nada, um nada cheio de
nada, a transbordar

de nada.

Molero

17.4.08

Primeiro estudo sobre a ciência de viver

Vivo rodeado de folhas-de-papel que esvoaçam como
palavras livres e
livres, Vivo
cheio de glóbulos enchendo veias e artérias ditas
coronárias e aórtas e afins, sem
fim, Vivo
ressentido por verbos afiados como
espinhos de flores e árvores que nasceram
no mar, Vivo
em botões de máquinas-de-escrever e
farmácias abandonadas e esquecido sucessivamente
em sucessivas mutações que se sucedem
alucinadas, Vivo
escurecido por romances alagados de palavras
que te escondem e florescem
e

morrem.

Molero

26.3.08

número vinte e três

Continuo sozinho e a sala cheia, árvores sorrindo
como noites adormecidas e caladas,
continuo sentindo salas e casas vazias,
enquanto cheias e apenas eu sozinho, há
poemas florindo em árvores conjugadas em tempos
de passado perfeito,
tornado e calado,
continuo com gente ocupando-me
sem que realmente alguém me ocupe,
transmute,
e sinto os tempos passando em
comboios e bicicletas esverdeadas,
pálidas e concentradas,
como palavras continuadas sozinhas,
abertas e esventradas,
continuo procurando sílabas e interjeições
por entre o pó e a névoa,
a névoa do passado sussurrando aos pavões,
sincopando em eterna usura,
doçura esverdeada e fugaz,
o poema faz com que um dia
igual ao seguinte,
sinto que continuo sozinho
numa sala cheia, cheia de

mim.

Molero